Criador do Super Nintendo, morre aos 78 anos

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O jovem Masayuki testa o jogo 'Tennis' em um 'Nintendinho' em 1985, e décadas depois relembrando a brincadeira.
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Nesta semana, a comunidade gamer sofreu um dos maiores “Fs” já sentidos nos últimos anos. No dia 6 de dezembro de 2021, morria o japonês Masayuki Uemura, vítima de câncer, aos 78 anos. A morte foi anunciada pelo Centro de Estudos de Videogames, da Universidade de Ritsumeikan, onde o engenheiro, aposentado desde 2004, atuava como professor visitante.

Figura ilustre

Embora a Nintendo seja lembrada por fãs e imprensa por nomes como Shigeru Miyamoto e Satoru Iwata, Masayuki Uemura era um homem igualmente importante dentro da história da empresa, na qual trabalhou por 32 anos.

Dentre seus trabalhos mais notáveis, Uemura fica marcado no hall da fama do videogame por ser o principal engenheiro por trás do Nintendo Entertainment System (NES ou “Nintendinho”, como ficou conhecido no Brasil) e daquele que viria a ser um dos consoles mais marcantes da história, o Super Nintendo, ou SNES. Confira um trecho do comunidado:

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O professor Masayuki Uemura, professor visitante da Faculdade de Artes e Ciências da Imagem da Universidade Ritsumeikan, que foi um dos fundadores deste Centro e seu primeiro diretor, faleceu em 6 de dezembro de 2021. Ele tinha 78 anos. Oramos sinceramente pela alma do falecido e gostaríamos de comunicá-los”, informou a nota de falecimento.

“Gostaríamos de expressar nossa sincera gratidão não apenas pelo desenvolvimento do Centro de Estudos de Videogames da Universidade Ritsumeikan, mas também por fazer uma grande contribuição para o desenvolvimento da indústria de jogos, lançando uma série de videogames”, complementa a nota.

Comunicado oficial sobre o falecimento de Uemura, na página da universidade de Ritsumeikan.

O NES começou com uma ligação de porre

Há uma história curiosa por trás da criação do NES (que no Japão se chamava Nintendo Family ComputerFamily Computer, ou apenas Famicom), um dos videogames mais importantes de todos os tempos. Diz a lenda (ou melhor, o próprio Uemura, de acordo com uma entrevista dele ao ao Iwata Asks, em 2010), que numa noite de 1981, ele recebeu um telefonema do presidente da Nintendo, Hiroshi Yamauchi.

Família de fundador da Nintendo vende suas ações da empresa

A ligação de Yamauchi era para fazer um pedido inesperado: um convite para Uemura passar a se dedicar na criação de videogames com cartucho, algo que estava tomando corpo na época, graças ao Atari, que emplacou forte com esse conceito em 1977.

Bem antes do NES surgir, o Atari 2600 era o videogame que reinava sozinho no final dos anos 70.

Uemura confessou que não levou muita fé no convite, mas mandou o tradicional “Hai, Hai” (“sim, sim!”) para o chefe, já que esse quando bebia costumava ligar para rabiscar ideias com ele, e na sequência esses assuntos nunca rendiam em nada.

Contudo, no dia seguinte, ao cruzar com o presidente na empresa, Uemura se espantou ao ver Yamauchi reforçar o pedido, e foi só ali que ele viu que se tratava de um projeto sério mesmo. Na época, Masayuki fazia parte da divisão P&D2, a divisão responsável pela criação do hardware da Nintendo, cuja demanda de trabalho estava tranquila ao ponto dele “ir todo dia mais cedo para casa”, conforme comentou o próprio Uemura aos risos.

Pedido pouco é bobagem

O pedido foi oficializado, e o departamento de Uemura, até então focado em produzir jogos embutidos nas placas, como era o caso do Game & Watch, passou a se dedicar nessa coisa deixar o jogo separado do console.

Contudo, essa missão tinha ainda mais um grau de desafio a ser atingido, o de se fazer por ali um inédito console que não tivesse concorrentes por três anos. E dois anos após essa missão ser aceita, a equipe chefiada por Uemura entregava na mesa da chefia o Family Computer, ou Famicom, ou ainda “Nintendinho” para o Brasil, um console de 8 bits da Nintendo rodava cartuchos intercambiáveis ​​e foi lançado com três jogos: Donkey Kong, Donkey Kong Jr e Popeye.

Masayuki Uemura testando o game ‘Tennis’ em um Nintendinho, no distante 1985.

Um “Furyô”, como diriam nas linhas de montagem

Apensar do lançamento ser promissor, foi um começo difícil de se comemorar, pois um defeito de produção (popularmente conhecido como “furyo” nas linhas de montagem) nas primeiras unidades obrigou a Nintendo a fazer um recall completo do produto e substituir as placas-mãe.

Passado do susto, o Nintendinho decolou e se tornou um enorme sucesso no Japão, vendendo quase 20 milhões de consoles somente naquele país, e mais de 61 milhões de unidades mundo afora.

Sai a sensação, entra o mito

Após o sucesso do console de 8 bits, chegou o momento de se pensar em algum console para reinar depois dos três anos almejados para o Famicom, que na verdade reinou por mais que o dobro disso. A mesma equipe foi escalada, e no final de 1990, chegava ao mercado uma revolução dignamente batizada de Super NES, com o dobro de bits e com um mercado inteiro de portas abertas para ele, que vendeu, em tempos difíceis (vale lembrar), 49 milhões de unidades pelo mundo.

Transformando videogame em matéria de faculdade

Após uma vida inteira dedicada aos games, em 2004, Uemura se aposentou, mas nunca deixou de colaborar com esse segmento com suas habilidades e conhecimentos em gera. Desde então, Uemura passou para o campo acadêmico, de onde atuou até o fim de sua vida ajudando alunos a se profissionalizarem dentro desse setor.

Em 2019, ele ganhou um prêmio máximo da universidade e da cidade de Kyoto, e colocou o segmento de games em um lugar inédito no Japão, ao receber o título Prêmio de Promoção das Artes da Cidade de Kyoto na categoria de artes de mídia, sendo o primeiro profissional da área de games a receber a honraria.

Uemura recebe o Prêmio de Promoção das Artes da Cidade de Kyoto de 2019 na área de artes de mídia (jogos). (Imagens: Universidade de Ritsumeikan).

Uma frase eternizada

A página oficial da Universidade de Ritsumeikan destacou uma frase de Uemura que defende como poucas a importância do videogame na sociedade: “Brincar é a essência de toda cultura.” Foram com palavras lembradas pela página que a notícia da premiação de Uemura ficaram registradas nesse espaço, que destacou ainda uma parte do discurso do engenheiro. Confira abaixo:

Estamos [ele discursa em nome do segmento] extremamente honrados por termos recebido o Prêmio de Promoção das Artes da Cidade de Kyoto e por os videogames serem reconhecidos como um gênero de Artes Midiáticas.
Nasci no final da Guerra do Pacífico [2ª Guerra Mundial] e pertenço à geração que imaginou e jogou todos os tipos de games do mundo que nos foram apresentados por meio de transmissões de rádio e revistas.

Atualmente, pessoas do mundo inteiro podem desfrutar de videogames juntas através da Internet. essa brincadeira é fortemente influenciada por diversas culturas, incorpora uma variedade de sabedoria e já passada de geração em geração. Acreditamos que os jogos que encontramos quando crianças e os jogos pelos quais nos apaixonamos podem se tornar a força motriz por trás de novas descobertas e novas ideias. Os videogames nasceram e se desenvolveram em meio ao rápido avanço da tecnologia digital, e espero e sonho que eles continuem a produzir novas sabedorias e desempenhem um papel na transmissão dela para a próxima geração.

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