Não há dúvidas de que as novas gerações têm sido profundamente impactadas pela presença constante da tecnologia, especialmente dos dispositivos móveis. Para pesquisadores como Jonathan Haidt, esse fenômeno está diretamente ligado a um problema crescente: o aumento da ansiedade entre os jovens. Em seu livro “A geração ansiosa”, Haidt argumenta que o uso excessivo de redes sociais reforça comparações irreais e padrões inalcançáveis de sucesso, além de criar um ambiente de hiperproteção que reduz a tolerância à frustração e à incerteza.
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Participando do evento South by Southwest 2025 (SXSW), em Austin, nos EUA, pude ouvir discussões sobre alternativas para fortalecer a resiliência e promover um aprendizado mais saudável. Um dos conceitos centrais foi o de “fracasso produtivo” (productive failure) e a adoção de um mindset experimental. Esse foi o foco da neurocientista Anne-Laure Le Cunff em sua apresentação, baseada no recém-lançado “Tiny Experiments”, livro que defende a curiosidade como ferramenta essencial para o desenvolvimento dos alunos.
Do medo do erro ao Mindset experimental
A educação tradicional costuma valorizar metas lineares e resultados previsíveis, criando um ambiente onde o erro é visto como fracasso. Para Le Cunff, essa mentalidade inibe a curiosidade e torna os alunos menos propensos a experimentar. Em sua palestra, ela propôs uma abordagem científica para o aprendizado, na qual a relação com a incerteza deve ser transformada. A chave estaria nos tiny experiments – pequenos experimentos que permitem testar ideias sem a pressão de um resultado definitivo.
Ao conectar essa abordagem às reflexões de Haidt, percebemos que a ansiedade juvenil muitas vezes deriva da ilusão de controle absoluto sobre o futuro. Quando acreditamos que a vida segue um caminho linear e previsível, qualquer desvio pode ser interpretado como fracasso. O mindset experimental desafia essa visão, incentivando os alunos a explorarem possibilidades sem medo do erro e redefinindo o sucesso como um processo contínuo de aprendizado.
Le Cunff sugeriu uma estratégia simples para estimular esse novo mindset: ao iniciar um aprendizado ou desafio, o estudante deve formular uma intenção na estrutura “Eu farei (ação) por (tempo)” (I will … during …). Além disso, compartilhar esse compromisso publicamente pode aumentar a adesão ao experimento e promover maior engajamento.
Aplicando a curiosidade na educação
Na prática, essa abordagem pode ser incorporada de diversas formas. Professores podem incentivar os alunos a formular hipóteses sobre determinado tema e testá-las sem a rigidez do certo e errado, priorizando o processo de experimentação. Projetos interdisciplinares podem ser estruturados como investigações, onde os alunos fazem observações, analisam resultados e ajustam suas conclusões conforme necessário. Dessa forma, a pressão pela execução “perfeita” é substituída pelo desejo genuíno de descobrir “o que acontece”. Esse formato não apenas reduz a ansiedade, mas também fortalece a resiliência, ao normalizar erros como parte natural do aprendizado.
Outro conceito relevante apresentado por Le Cunff foi o de self-anthropology, no qual os estudantes se tornam cientistas de si mesmos, observando padrões de comportamento e ajustando suas estratégias de aprendizado com base na autorreflexão. Esse princípio se alinha diretamente à necessidade, apontada por Haidt, de desenvolver nos jovens a capacidade de pensamento crítico e autorregulação emocional. Quando os alunos aprendem a monitorar suas emoções e reações diante da incerteza, tornam-se mais preparados para lidar com desafios e adaptar-se a novos contextos.
Curiosidade como ferramenta contra a ansiedade
O SXSW EDU 2025 reforçou a noção de que a curiosidade pode ser um poderoso antídoto contra a ansiedade educacional. Ao incentivar uma mentalidade experimental, os estudantes aprendem a abraçar a incerteza e a enxergar o erro como parte fundamental do processo de aprendizado. Para os educadores, essa perspectiva oferece uma nova abordagem para criar um ambiente de ensino mais dinâmico, criativo e resiliente.
Em um mundo em constante transformação, preparar os jovens para navegar na incerteza pode ser um dos maiores legados da educação. E talvez, ao cultivarmos a curiosidade como hábito, possamos ajudar essa geração a enfrentar os desafios do futuro com mais leveza e confiança.